Era abril ou maio de 2003 quando estava eu, solitário e sem amigos, andando de skate na calçada em frente a minha casa, quando um novo vizinho, que havia se mudado há algumas semanas, passou por mim junto com mais dois garotos suados e com tênis rasgados, segurando uma caixa de madeira com uma cantoneira. Um deles parou e disse:
- Eaí, cara! Vamos lá andar de skate com a gente, ali no banco?
E eu respondi:
- Não sei, acho que meu pai não vai deixar... – de cabeça baixa, pois estava de castigo por ter tirado notas ruins na escola.
Ele insistiu, dizendo:
- Capaz, eu falei com teu pai. Ele deixou tu ir. Vamos?
Abri um sorriso e acompanhei os garotos, que estavam andando ali há mais de 5 horas.
O nome deles era, Daniel, mais conhecido como Xiru, Nescal e Ruan, que apenas estava acompanhando os dois. Quando chegamos neste local, que ficava na esquina da minha rua, estava mais uns 22 skatistas do bairro, esperando aquela caixa para poderem andar num obstáculo legal. Foi ai que conheci todos eles de uma vez só. Nesta tarde comecei a ter amigos e conheci o lugar onde eu vivia, pois eu era muito tímido e medroso. Saia apenas para ir à escola e visitar meus parentes.
Na época, meu pai era sócio de uma loja de surf/skate, que recém tinha inaugurado na cidade, e por causa disto o pessoal começou a me tratar de uma forma diferente. No outro dia, fui convidado para ir à antiga pista de skate da QIX, em Novo Hamburgo, com o Vesgo e o Mosquito. Passamos à tarde nesta pista, andando e conversando, e assim fui conhecendo mais a história daquele pessoal que invadia as ruas como piratas, que matavam aula para montar seus skates, que praticavam aquilo em verões escaldantes de quase 35ºC, sem reclamar.
Ao passar do tempo, fui aprendendo manobras, ficando popular entre a galera, perdendo a timidez e obtendo um novo estilo de se vestir, no qual me visto até hoje. Nas tardes de domingo eu, Xiru e o Nescal nos reuníamos na minha casa para jogar Tony Hawk’s 4 e escutar a trilha sonora, onde eu me inspirava muito, mas não sabia que bandas tocavam. Nescal, que tinha bastante conhecimento musical, me apresentou o nome destas bandas e foi ai que comecei a conhecer de verdade o bom e velho Hardcore. Tudo era skate naquela época! Assistíamos muitos vídeos antes de sair, desenhávamos, líamos revistas, os assuntos eram sempre relacionados ao esporte, tanto que nem nos importávamos muito com garotas.
Cada um tinha um estilo diferente de ser, de agir, de se vestir e de andar de skate, isso era o mais legal de tudo. Tinha os que andavam melhor e os que não conseguiam nem dar um Ollie* direito, os que tinham ego elevado e os que eram humildes, os engraçados e os mais sérios, os mais agressivos e os que davam manobras tranquiamente, cada um com seu diferencial e técnica.
Já fomos chingados de muitas coisas, policiais nos ameaçavam, mas a gente estava sempre lá, pulando os gaps, escadas e esmerilhando caixotes e corrimões. Era a nossa vida, era tudo o que a gente tinha, era o que nos unia e nos ensinava sobre muitas coisas. Construíram uma pista, em 2004, com os piores materiais de construção possíveis, comprados pela prefeitura. Mas nada fazia com que a gente parasse de andar nas ruas da cidade.
Às vezes íamos a festas ou saíamos para algum lugar social, sempre com o skate debaixo do braço, com o boné suado, os tênis rasgados, a camiseta fedendo e a boca com gosto de sal, pois das 24 horas do dia, 15 eram para o esporte. Não ligávamos para o que os outros pensavam e mesmo assim, no final da história, nos dávamos bem em todos os sentidos.
Eu sempre tive as melhores peças, pois meu pai sempre me apoiou com itens da própria loja. Praticamente quase toda semana eu trocava de shape, mesmo não tendo usado muito, mas trocava para poder andar sempre com o skate novo, e assim, ajudava meus amigos que não tinham muito dinheiro, vendendo os usados por uma mixaria. Mas infelizmente a história não durou muito...
Ao passar do tempo, uns foram desistindo por falta de grana, por não terem mais vontade ou por começarem a namorar. Outros se mudaram, uns começaram a trabalhar, tiveram filhos, entraram nas drogas e alguns morreram acidentalmente, como nosso velho amigo Bitão. E o skate foi perdendo sua fama, já não há muitos campeonatos como antigamente, muitas lojas fecharam, marcas saíram do comercio, skatistas conhecidos sumiram da cena.
Hoje em dia, daquelas 30 figuras lendárias do bairro, que fizeram história e farão parte da minha memória para o resto da vida, já não andam mais de skate... Dos poucos que restaram, só se ouve belas histórias para se contar e as amizades perdidas que encontramos raramente pelas ruas.
A vida nos levou para caminhos diferentes, mas jamais vou esquecer daquele cheiro de shape novo, aquela poeira de lixa voando, o barulho excitante dos rolamentos secos e o som que ele fazia com o impacto das manobras. Vida longa ao nosso amigo skate, que nos uniu, nos ensinou a viver e nos trouxe belas histórias pra contar!
Foto: Filme baseado na história real "Lords of Dogtown" (2005) - Stacy Peralta, Tony Alva e Jay Adams
Relembrar é viver!
ResponderExcluirSeria massa se um dia a gente pudesse volta naquele tempo e sentir aquele clima de novo. Da um role naqueles skate velho as vezes sem tail e sem nose, as vezes com uns rolamento panelão que o cara botava pra quebra o galho e acabava rodando até o fim deles, mais sempre com as parceria de verdade.
Tempo bom esse gurizada, que saudade.